23 de jul de 2007

Pesos e medidas

pesom[2]

A discussão emancipacionista que está em evidência no Pará, tem propiciado constatações surpreendentes.

Pessoas que supostamente teriam condições para discutir o assunto com equilíbrio e sabedoria, limitam suas opiniões ao achincalhe.

De onde se deveria esperar achincalhes constatam-se um equilíbrio e uma delicadeza gratificante: o respeito mútuo é imprescindível ao bom termo de qualquer contenda.

No Pará inteiro, a ladainha é a mesma: a ausência do Estado é assunto de 10 em cada 9 oradores.

Alguns acusam o governo, a maioria, porém, acusa o Estado mesmo, excluindo dele a pessoa do governante.

O Pará não tem conseguido usar adequadamente os recursos que recebe, em benefício da população.

Se for verdadeiro o fato de que o problema não está no administrador, devemos então concluir que a causa desta situação está na arquitetura do Estado.

Outra conclusão seria mais radical: o Pará seria inviável, estaria falido e deveria fechar as portas.

Não acreditamos na inviabilidade do ser humano. A sua capacidade de gerar riquezas nas condições mais adversas é notória.

Dizer que um estado ou município a ser criado é inviável é duvidar da tenacidade da  espécie humana.

Em pouquíssimo tempo o homo sapiens saiu das cavernas e chegou à lua: o ser humano é um vencedor.

As riquezas no Pará estão tendo resolutividade econômico-financeira. Ocorre que a população não está sendo beneficiada com isto.

Má vontade dos gestores? Não. Há impraticabilidade administrativa, que tem como causa o inadequado aproveitamento geopolítico do território.

Não é inteligente acreditar que se pode governar o Pará a partir exclusivamente de Belém.

É estrábica a visão colonialista que têm alguns grupos da capital em relação ao Sul e Oeste do Pará.

Algumas argumentações daqueles que se colocam de encontro à divisão do Pará, são de uma numerologia capciosa: dois bilhões de reais para implantar um novo estado, perda de 350 bilhões para o Pará, pois este  é o valor estimado das reservas minerais.

A capciosidade está na falácia de ter como fundamento a idéia de que as regiões emancipáveis são um grande deserto onde se vai ter que construir tudo em 24 horas, inclusive os suntuosos palácios para abrigar os três poderes.

Povos precisam de governo e não de palácios de governos. A estrutura física que pode abrigar uma administração já existe nestes locais.

O argumento de que o Pará perderá suas reservas minerais para um futuro Estado de Carajás, é um sofisma: o Pará não tem reservas minerais.

O subsolo é patrimônio da União, e, no caso de Carajás, a União o entregou à Companhia Vale do Rio Doce, que explora, conotativa e pejorativamente, as tais riquezas minerais: o Pará só vê o trem passar e o navio zarpar.

Além do mais, discussões de retificações geopolíticas, devem-se dar sob óticas de desenvolvimento regional e não de negociações divorciais.

Caso se estabelecesse a lógica da compensação pelo que não é propriedade do estado, colocando-se na cesta o bem, só porque ele está no território, teríamos que colocar preço nos rios e nas florestas das áreas emancipáveis, o que seria um absurdo.

A lógica, portanto, que alguns estão querendo construir, peca pela falta de senso.

Mais sensato seria admitir a inviabilidade político administrativa do território paraense da forma como ele está inserido no mapa e discutir, a partir desta constatação, a melhor forma de retificar-lhe o território.

16 de jul de 2007

Vento haragano

A Rosa dos Ventos na cartografia portuguesa do século 14

Sempre que ocorrem incidentes ambientais ou episódios de fiscalização em empresas, os fatos travestem-se em versões opostas, mas que revelam uma só direção: há algo malcheiroso na história.

Quando a Imerys foi interditada, por ter deixado vazar caulim nos igarapés de Barcarena, a primeira reação da empresa, e dos arautos do desenvolvimento, foi de que a Secretaria de Meio Ambiente estava equivocada.

Na conta do capital, a moeda está à frente do meio ambiente e nunca à ilharga dele.

O argumento principal para que se devolvesse a licença de atividade da empresa era de que a paralisação lhe custaria 500 mil dólares por dia.

Ao carpimento financeiro somou-se o cínico, mas eficaz, argumento socioeconômico: a paralisação ameaçava os empregos.

A empresa construiu uma versão para apresentar ao distinto público: o vazamento foi fortuito, sem maiores conseqüências. A empresa sempre teve o maior cuidado ambiental no exercício da sua atividade.

A versão do descuido com a manutenção das bacias e a desatenção da empresa à inspeção da Secretaria de Meio Ambiente, em agosto de 2006, que detectou problemas de fissuras na bacia de rejeito nº 03, exatamente a que rompeu e causou a poluição química, foi o outro sentido da direção do vento.

O vento, afinal, é esta brisa constante e malcheirosa de se fazer empreendimentos por aqui, como dantes se faziam nas colônias: na marra.

A brisa é pior ainda, quando estes desserviços são justificados pela geração do tal PIB que os caboclos nunca viram: estes caras-pálidas precisam começar a coçar os bolsos e dividir esta renda com cuidado ambiental maior e repercussão social mais conseqüente.

Argumentos eventualmente correspondentes aos da Imerys, publica a Pará Pastoril Agrícola, a Pagrisa.

O Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo alega ter encontrado 1.108 empregados em condições análogas à de escravos em uma de suas fazendas, em Ulianópolis-PA.

A empresa nega o relato dos fiscais e até afirma que, dos 1.108 trabalhadores, 80 querem voltar a cortar cana para a mesma.

Entre a versão da indignada empresa e a dos draconianos fiscais do Ministério do Trabalho, está a indigesta verdade de sempre ter soprado, desde os tempos da borracha, um vento malcheiroso na planície amazônica.

Não se deve apostar no arrojo empresarial a qualquer custo. Não se deve elevar o empreendedor à categoria de demiurgo do desenvolvimento só porque ele gera emprego: isto é componente da sua atividade. Veja-se como isto é feito antes de lhe espetar a medalha ao peito.

É possível desenvolver a Amazônia e explorar as suas riquezas sem a insensatez de degradar-lhe o ambiente.

Some-se a isto a imposição da legislação contemporânea, de que escravizar trabalhadores não é tão só atar-lhes ao açoite do pelourinho.

Negar condições mínimas de dignidade, como servir comida de qualidade duvidosa, ou, ao final da liça, oferecer como teto apenas uma lona preta, constitui condições de trabalho análogo à escravidão.

É possível melhorar a qualidade do ambiente de trabalho rural, para isto, o brioso agro business não precisa aumentar os preços: basta diminuir os lucros.

9 de jul de 2007

No Marajó

Menino em canoa na Ilha do Marajó-PA

Um amigo contou-me suas agruras durante a visita de um casal, amigo dele, que veio do Rio de Janeiro, passar uma semana em Belém.

Quando o casal chegou à Belém viu a propaganda de um passeio à cidade de Soure, que prometia barco e hotel maravilhosos, moças e rapazes dançando carimbó, praias e tudo: mais parecia o Caribe na Baía de Guajará.

Lá se foi meu amigo, e o casal, pegar o barco.

Uma vez à bordo, constataram que a teoria do pacote, na prática era diferente.

Por cima das cadeiras do barco havia redes atadas e um fedor exalava: para feder mais que rede de caboclo embarcadiço, só pixé de boto preto.

Tiveram que encarar o fedor da rede e o caboclo pulando, por cima das cabeças deles, para se ajeitar na dita cuja.

Deu vontade de merendar. A lanchonete era em cima da casa de máquinas e o sanduíche tinha gosto de óleo diesel  misturado com graxa.

Deu vontade da senhora ir ao banheiro. Ela voltou, em segundos, amarela, tendendo ao verde.

Não era patriotismo somatizado: era o banheiro que nunca houvera sido lavado, e fedia mais que pixé de boto preto e inhaca de mulher juntos.

Chegaram. A madame correu para o banheiro. Achou o chão da retrete muito quente.

O meu amigo foi saber o porquê: o gerente explicou que o piso estava em cima da saída do ar condicionado do quarto de baixo, mas que era só ligar o chuveiro e o chão esfriava.

Meu amigo perguntou que horas começava o show folclórico. A moça atrás do balcão respondeu que não teria show naquela noite, porque o dono do hotel não viera de Belém e nem mandara os cem reais para pagar os artistas.

Meu amigo reclamou que o show estava no pacote. A moça disse que nada podia fazer. Meu amigo disse que dava os cem reais. A moça pegou os cem reais e disse que iria avisar no quarto quando o show fosse começar.

Na falta do que fazer a tarde, meu amigo resolveu embriagar-se e embriagar o casal, assim o tempo passava mais depressa. Ficaram semi-ébrios, para não perder o show.

Lá pelas nove, o meu amigo acordou com o som do carimbó. Vestiu-se e desceu: o show estava terminando.

Reclamou que não fora avisado, como combinado. A moça disse que esqueceu. Ele pediu para repetir. Só repetia se pagasse mais 50 reais. Ele pagou.

Hora de voltar. Quando iam subir com o carro, alguém de dentro do barco avisou que atrasaria por motivos de força maior. A especificação da força maior não interessava, mas era uma força maior.

Na despedida, no aeroporto de Belém, o casal deu um aceno, com cara de até nunca mais.

Mas, pensou, meu amigo, quem sabe eles voltam para o círio...

2 de jul de 2007

A China aos chineses

Postais da China

A Wal-Mart, gigante do varejo estadunidense, enfrenta, nos EUA, um processo inusitado: a organização social Internacional Labor Rights Fund (IRLF), pede-lhe uma bilionária indenização trabalhista, em nome de 14 chinesas que trabalham em fábricas, na China, que fornecem à rede varejista.

O caso de uma das trabalhadoras: Jane Doe II – é usado um pseudônimo para proteger a operária a sua família de represálias - trabalha em uma máquina de costura, em Shezen, 20 horas por dia, sete dias por semana. Não recebe horas extras. Pagam-lhe 24 dólares, o equivalente a R$50,00 por mês.

Alega a IRLF que a empresa não fornece os equipamentos de proteção necessários e a operária sofre de problemas respiratórios e dermatológicos por causa da poeira do algodão e da lã à qual está exposta.

Mas, prossegue a IRLF, a operária não tem escolha: ou se submete a estas condições ou perderá seu emprego e será colocada numa lista negra, prática comum nas fábricas de confecção de Shezen.

A ação é de impossível acatamento, pois a ILRF não é parte legítima para reclamar, nos EUA, por operárias chinesas, mas, o que queria a organização, já está ocorrendo: a discussão sobre o aviltamento da mão de obra na China.

Já houve nos EUA, contra a Wal-Mart, denúncias semelhantes, o que levou a rede a se comprometer, perante um Tribunal Federal, a supervisionar as fábricas de seus fornecedores chineses, e só comprar de quem provesse aos trabalhadores padrões mínimos de dignidade.

Ao lado de Jane Doe II, encontram-se outras vítimas de uma política comercial que visa baixar os preços a qualquer preço, e um destes componentes do qualquer preço é uma prática que o mundo civilizado quer banir: o trabalho escravo.

A China se especializou na oferta de preço baixo. A agressividade da sua mão de obra é um componente que o país dispensa no componente de custos.

Por outro lado, quem fomenta esta atitude são as redes varejistas dos grandes mercados de consumo.

Na forma, a China é um exemplo de prosperidade a ser seguido. Ainda não foi efetuado, todavia, em função do fechamento em que vive o sistema, um estudo mais aprofundado sobre as bases do crescimento chinês e as perspectivas de sustentabilidade do mesmo, caso os seus importadores resolvam criar juízo e exijam avanços sociais e trabalhistas equivalentes.

Não deve ser exemplo, um sistema de produção em cuja linha uma operária, para ir ao banheiro, precisa conseguir previamente a permissão do supervisor. Caso este permita, ele dá uma espécie de bônus de saída por 5 minutos: há somente dois bônus de saídas diários por cada secção de 70 trabalhadores.

Se a China aumentasse seus preços, para dar dignidade a maioria do seu operariado, ela perderia o seu mercado e entraria em colapso financeiro.

O custo, portanto, da sua prosperidade econômica, é a manutenção de índices sociais precários, mantidos por métodos trabalhistas medievais.

O cinismo internacional pactuou que o modelo chinês é para os chineses: todos querem mantê-lo, pois nos enchem as prateleiras por poucos dólares, mas, quem ousar imitá-lo em um país com um mínimo de responsabilidade social, corre o risco de acabar na cadeia.