28 de mai de 2007

A Vale, os ricos, os pobres

Entre pobres e ricos - Diego Rivera

Na quarta-feira passada, 23.05, a Fundação Vale do Rio Doce apresentou um estudo intitulado "Diagnóstico Integrado em Socioeconomia no Sudeste do Pará", indicando que a região é, potencialmente, a mais rica do Estado.

Potencialmente é um termo dúbio, mais afeito a oráculos que a cenários: desde quando ainda galos cantavam nos quintais, eu ouço esta coisa de que o Brasil é um país com um grande potencial.

A pujança econômica do Sudeste do Pará é vista a olhos nus, se usarmos os mesmos óculos que Adam Smith usou, quando escreveu "A riqueza das nações".

A Vale do Rio Doce, talvez, queira que o contribuinte interprete os dados como tendo sido ela a grande responsável pela proximidade dos números do Sudeste paraense, com os da capital, que ainda concentra o maior PIB do Pará.

Vai mais longe na bondade e dobra os sinos do progresso ao anunciar que isto não é nada perto do que virá: mais investimentos em projetos de mineração na região, farão com que o sudeste tenha crescimento médio de 20% até 2010.

A diretora superintendente da Fundação Vale do Rio Doce, Olinta Cardoso, define o trabalho como "um grande esforço de mudança" que a CVRD está fazendo para o desenvolvimento econômico do Estado.

O estudo demonstra o combustível da economia do sudeste paraense: agropecuária e mineração e, ao final, conta como a mineração é uma panacéia para a economia e para a distribuição de renda: os municípios da área sob influência dos projetos minerais da Companhia Vale do Rio Doce têm o maior PIB per capita do Pará.

Um estudo da mesma Diagonal, se encomendado para mostrar a miséria, a má qualidade de vida, o péssimo IDH e o espantoso passivo ambiental do Sudeste do Pará, teria a mesma confiabilidade, afinal, pujança econômica e desenvolvimento humano não estarão na mesma proporcionalidade se o modelo estiver equivocado.

A Vale do Rio Doce, em que pese os investimentos feitos no Pará, e não para o Pará, está para o estado mais ou menos como estava a britânica Companhia das Índias Orientais para a Índia colonial: tão poderosa na colônia que até tinha o seu próprio exército. Levou luxo e riqueza à Índia, mas somente para os ingleses que lá se instalaram. Os nativos e a plebe de sua majestade curtiam a miséria de estarem à margem do PIB imperial.

O Pará não soube elaborar uma agenda inclusiva na esteira da distração desenvolvimentista do seu Sudeste. A coisa ali se deu, de novo, à inglesa, na base do laissez-faire e, até hoje, a região é terra de ninguém: o Estado não chegou lá e só contabiliza o PIB.

A agropecuária é extremamente centralizadora de renda. A renda gerada pela mineração não alcança a massa populacional. Esta nem sabe o que são estes números divididos por um valor econômico, cujo quociente lhe dá uma renda per capita de R$7.000,00: alguém precisa lhe entregar este salário nunca visto.

A Vale do Rio Doce precisa fazer algo mais pela inclusão social do que estudos com números verdadeiros mas de resultados inclusivos falaciosos.

A questão social não é responsabilidade exclusiva da empresa, que precisa dar satisfação aos seus acionistas com lucros, mas, alguém precisa lhes dizer que responsabilidade social vai muito além de patrocínio de eventos e saraus.

21 de mai de 2007

Conselhos de uma professora

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A única referência que eu tenho do texto abaixo é que, supostamente, ele foi escrito por uma professora, em 1987, e entregue aos seus alunos que se graduavam.

Gostei e resolvi publicar. Acho que será de bom proveito. Ei-lo:

1. Aproveite o poder e a beleza da sua juventude antes que eles pereçam.

2. Você não é tão gordo quanto imagina.

3. Seja previdente: você não será alguém na vida apenas pensando em ser, assim como não consegue resolver uma equação de álgebra apenas mascando chicletes.

4. Cante, dance, viaje: faz bem à alma.

5. Tenha cuidado com o coração das outras pessoas. Não dê crédito a pessoas que não têm cuidado com o seu.

6. Não perca seu tempo com ciúmes.

7. Às vezes você vence, às vezes perde. A corrida é longa, e, no fim das contas, é apenas com você mesmo.

8. Lembre-se dos elogios que você recebe e esqueça os insultos. Se você conseguir fazer isso, me conte como se faz.

9. Guarde suas cartas de amor e jogue fora os extratos bancários antigos.

10. Faça exercícios.

11. Não se sinta culpado se não souber o que quer ser na vida: pessoas interessantes que eu conheço não tinham a menor ideia do que queriam ser na vida aos 22 anos e, algumas, já aos 40, ainda não sabem. Mas, é bom ir resolvendo o que você quer ser.

12. Cuide bem dos seus joelhos: você vai sentir falta deles quando não prestarem mais.

13. Talvez você se case e tenha filhos. Talvez não.

14. Talvez você se separe aos 40. Talvez você dance uma valsa nos seus 75 anos de casado.

15. Não importa o que você faça, não fique demasiadamente orgulhoso nem muito bravo consigo mesmo.

16. Leia as instruções, mesmo que você não vá segui-las.

17. Não leia revistas de beleza: elas só fazem com que você se sinta feio.

18. Tente conhecer os seus pais e demonstrar-lhes amor: você nunca sabe quando eles vão partir para sempre.

19. Seja legal com os seus irmãos: eles são a melhor ligação com o seu passado, e, provavelmente, as pessoas com quem você vai poder contar no futuro.

20. Amigos vêm e vão, mas você tem que segurar alguns deles: os preciosos. Aprenda a reconhecê-los e, eventualmente, perdoá-los.

21. Respeite os mais velhos: você também vai envelhecer, e quando isto ocorrer, você vai fantasiar, achando que quando era jovem, os preços eram razoáveis, os políticos eram nobres e as crianças respeitavam os mais velhos.

22. Não espere que ninguém o sustente.

23. Não mexa muito no seu cabelo ou, quando você tiver 40 anos, vai parecer que você tem 85.

24. Tenha cuidado com o conselho que você vai seguir, mas seja paciente com aquele que o dá.

25. Finalmente, use protetor solar. Os benefícios dos mesmos foram provados pelos cientistas.

14 de mai de 2007

Propaganda de governo

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Os valores gastos com propaganda oficial no Brasil precisam sofrer redução imediata, e o quociente disto deve ser investido em serviços de maior proveito social.

As cifras despendidas são consideráveis. As desculpas para despendê-las são falaciosas. A justificativa de representarem um percentual desprezível da arrecadação é cínica, em se considerando que o valor absoluto das despesas poderia ser de maior proveito, se investido de forma menos inconsequente.

O Brasil é um dos poucos países, cujos governos, em todas as esferas da federação, fazem despesas com propagandas.

Os gastos com publicidade, que deveriam ser feitos com campanhas educativas ou informações de utilidade pública, tomaram o conceito da propaganda pura e simples: os governos se transformaram em vendedores de versões, existam ou não fatos para serem propagados.

A propaganda oficial é tão contumaz, que a Carta Magna, as constituições estaduais e as leis orgânicas municipais reservam um percentual da receita orçamentária, para o gestor alardear os seus feitos: tornou-se um instrumento para promover governantes e não um elemento de informação do governo.

Quase não é necessário realizar: basta ter um bom publicitário, contratar um empresa de publicidade para embalar os sonhos do que o eleitor gostaria de ter, e colocar isto de forma que ele acredite que está tendo.

Não há administração que não tenha a sua parcela de propaganda, a fim de informar o distinto público de que tudo está uma maravilha.

Todos os meios são usados e abusados: do rádio à televisão; do jornal às revistas; dos outdoors, que poluem visualmente a cidade, à mala direta.

É pequena a parcela da imprensa nacional que não tenha uma agulha espetada no sistema venoso das finanças públicas, à guisa de publicidade.

Alguns se apoderam da jugular, transformando a propaganda na mais acabada forma de transferência de recursos públicos para o privado, sob a proteção de uma legislação leniente e de uma fiscalização descuidada.

Na propaganda oficial está ainda um dos maiores canais de desperdício de dinheiro público: estima-se que a União, estados, municípios e empresas públicas, torram em propaganda, por ano, algo em torno de cinco bilhões de reais.

Está construída uma ditadura virtual. A maior realização de um governo passa a ser a sua propaganda. Isto beira a obra dos irmãos Wachowski, a trilogia Matrix: um mundo em que o ser humano vivia dentro de uma cápsula, onde, através de cabos, vivia a percepção virtual programada pelas máquinas.

Cá, fora do cinema, a cápsula cibernética na qual vivemos são os canais de propaganda aos quais somos forçados a nos conectar na sociedade midiática.

Os que manejam estes canais nos alimentam com a versão por eles elaborada para ser a nossa percepção de realidade.

A quantidade e a frequência da propaganda a que somos submetidos, torna a percepção da realidade quase uma quimera.

Quando a propaganda é a dos governos, os alimentadores destes canais são os senhores da República, que, com os seus meios de financiamento, pagam e alimentam a nossa ilusão.

A propaganda oficial sempre foi elemento decisivo em projetos de poder. O Brasil, não obstante, precisa discutir-lhe a forma e o custo absoluto, descolando-o do cínico percentual legalmente permitido, que foi escrito na Carta, por lobby de grandes grupos de comunicação.

É hora de o Brasil traçar uma densa linha que divida a informação, mensagem necessária, emitida à nação pelos governos, da propaganda pública, que há muito se transformou em um dos maiores elementos de desperdício de dinheiro público de que dispõem as estruturas de poder montadas no País.

Os governos precisam aceitar que a melhor propaganda que eles podem fazer de si mesmos é a busca da excelência dos serviços que devem prestar.

Qualquer outra coisa tem um quê de Goebbels: ninguém merece.

7 de mai de 2007

Cantiga de esponsais

Conto de Machado de Assis

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Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem o que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada. Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra, com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. "Quem rege a missa é mestre Romão" - equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: "Entra em cena o ator João Caetano"; - ou então: "O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias." Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. Não que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.

- Mestre Romão lá vem, pai José, disse a vizinha.

- Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jucundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele...

Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor. Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas. Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única de tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: - a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe saía informe, sem idéia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começado três dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como ele a ela. Três dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma cousa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair. Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.

- Pai José, disse ele ao entrar, sinto-me hoje adoentado.

- Sinhô comeu alguma cousa que fez mal...

- Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica...

O boticário mandou alguma cousa, que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. É preciso dizer que ele padecia do coração: - moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico.

- Para quê? disse o mestre. Isto passa.

O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança, apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, - outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final.

- "Está acabado", pensava ele.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras:

- Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...

Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas. E então teve uma idéia singular: - rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

- Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dous casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

- Aqueles chegam, disse ele, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá....

- Lá, lá, lá...

Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.

- Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma cousa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela para o lado dos casadinhos. Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo. Mestre Romão, ofegante da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

- Lá... lá... lá...

Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma cousa nunca antes cantada nem sabida, na qual cousa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.

Cantigas dos esponsais

Detalhe de um cartaz do filme Amadeus, de Milos Forman. A figura representa o frustrado músico Salieri

Cantigas de Esponsais, conto de autoria de Machado de Assis, publicado em 1884, conta a estória de Romão Pires, um maestro que chegou aos sessenta anos com o sentimento doloroso da frustração.

A razão daquilo era que Romão, apesar de ter sido um ótimo regente, não conseguia compor. Pior: trazia dentro de si belíssimas composições, tinha óperas inteiras em sua mente, chegava a ouvi-las ecoando quando se colocava a cismar, porém não conseguia escrever aqueles sons.

Romão desesperava. Não conseguia compor. Suas óperas etéreas ainda devem ecoar pelo vento, jamais, todavia, alguém poderá ouvi-las, pois o desditoso Maestro Romão Pires morreu sem conseguir compor uma nota sequer.

Sempre temos ouvido falar do imenso potencial do Pará, que tem também as suas óperas e todo um conjunto de harmonias naturais que uma vez compostas seriam ouvidas por todo o Brasil, mas, como o maestro machadiano, não tem conseguido compor.

A melodia só ecoa em nossos próprios ouvidos e em conseqüência disto chegamos talvez àquela idade em que a frustração começa a tomar conta dos nossos corações e a esperança, que é o combustível da resistência, acaba-se deixando conquistar pelo desamor.

O Pará tem cedido a sua própria fadiga estrutural. Se deixado vencer pela inércia, que acaba se fazendo mais forte que as forças que a ela se deveriam contrapor.

Este processo, seus elementos e personagens, com rara exceção, remonta por gerações: maestros que só souberam tocar as músicas já compostas, sem terem tido a aptidão de compor a própria melodia.

Isto não tange somente aos políticos, que na inteligência popular são os culpados de todos os males. Todos, políticos, empresários e intelectuais, são sujeitos deste processo.

Mas o Pará pode e deve sair disto.

É preciso criar: o potencial desaproveitado é a frustração da alma que o contém.

É preciso ousar: a ousadia tem sido a tinta com a qual a história tem escrito suas páginas.

É preciso agir: a agonia tem gerado heróis ao longo da sobrevivência humana.

Estas três notas podem gerar os três elementos necessários para se começar a escrever a nova melodia paraense: o projeto, a execução e a mudança, precisam aparecer na partitura.

Uma nota mais aguda se deve unir àquelas: a urgência, pois o mundo vive uma época bizarra na qual o que não urge perde.

Ou, podemos permanecer sentados na cadeira de balanço, olhando o horizonte, curtindo as nossas frustrações que, neste caso, tem sido a prima mais próxima da nossa incompetência.