10 de jan de 2003

A Terra do Meio

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Os leitores e os cinéfilos, com certeza, desejariam visitar a Terra do Meio: uma localização geográfica ambientada por Tolkien, onde acontece parte da saga dos povos que ele imaginou em sua obra, O Senhor dos anéis.

Pois bem, não é de todo impossível visitar a Terra do Meio e se deparar com todas aquelas personagens: ela fica aqui no Pará, em uma rica faixa de terra de mais de 8 milhões de hectares, abrangendo os municípios de Vitória do Xingu, Altamira, Novo Progresso Itaituba e São Felix do Xingu.

A Terra do Meio é assim chamada por se localizar no meio do Pará: é a nossa Região Central, em se tomando como direção um corte de Norte a Sul do Estado.

Abriga reservas indígenas, todo o mogno do mundo, áreas minerais onde grassam os garimpos de ouro e pedras, além de abrigar uma das maiores biodiversidades do planeta.

A Terra do Meio também abriga o narcotráfico, o contrabando de armas, metais e pedras, o trabalho escravo, a grilagem, a invasão de terras indígenas, a extração ilegal do mogno, e mais tudo aquilo que o engenho humano pode imaginar para o mal e a ausência do Poder Público consente que se faça.

A Terra do Meio é um santuário de pistoleiros de todo o gênero, onde a vida humana vale por volta de duzentos reais: lá se mata e se morre, todos os dias, por motivos que para um mortal qualquer seria de uma futilidade à toda prova, mas que, para os mores que lá se estabeleceram, são razões de sobra para os devidos acertos de contas.

Estes crimes tidos e havidos no varejo do cotidiano, não têm repercussão alguma fora dos limites da Terra do Meio e, quando processados, se quedam esquecidos pela inépcia da jurisdição local, ou pela falta de capacidade operacional daqueles que deveriam dizer a justiça.

Quando os senhores dos anéis ousam mais um pouco e resolvem agir no atacado, chama-se a ação de chacina e os estertores da Terra do Meio ganham as manchetes dos jornais das capitais do Brasil e do mundo.

Foi o que ocorreu há duas semana, quando sete trabalhadores rurais e um fazendeiro foram assassinados na fazenda Primavera, no município de São Félix do Xingu, no extremo Sul da Terra do Meio: mais um episódio do conflito agrário no Brasil.

A nossa Terra do Meio, como a Tolkien, é cheia de videntes: há pelo menos dois meses o prenúncio de mais uma tragédia naquela região foi levado ao conhecimento das autoridades estaduais e federais, mas, o Estado brasileiro não se conseguiu ainda fazer presente em muitas regiões do País.

Nestes casos, o Brasil vive um duplo drama de incapacidade operacional: não consegue prevenir e nem remediar.

Em não sendo mudada esta marcha, que mais parece aquela do Último Selo, de Bergman, pouca coisa vai mudar na Terra do Meio, e aquela região passará ao largo do caminho da felicidade serena: derruba-se a floresta e se fazem fazendas; pistoleiros são contratados para intimidar fazendeiros e agricultores; as áreas são ocupadas, na marra, para a extração ilegal de mogno, ouro e pedras; depois da área devastada, volta-se ao pasto; quando o pasto não mais nasce chegam os novos adventistas do agro business: os senhores plantadores de soja.

Depois da soja, quem sabe, reste a serenidade morna do deserto.

Este é o sentido torto que alguns pregam como o desenvolvimento da Amazônia.

Até quando triunfarão os ímpios?